Sou uma pessoa que adora livros! Acho até que igualo o prazer da leitura ao de andar entre eles, olhar os títulos, autores e orelhas, abrí-los em páginas aleatórias e tentar me surpreender ou me sentir atraído em um parágrafo lido, passar a outro e assim por diante. Creio que livrarias são lugares de refúgio para mim. Adoro as que tem sofás e luminárias para leitura.
Bom, baseado nessa minha neurose literária, pois nem leio tanto assim quanto gosto dos livros, poderia eu iniciar aqui uma defesa do livro impresso e uma cruzada contra as tecnologias que tentam usurpar o prazer que descreví, colocando centenas de títulos dentro de uma maquininha sem graça, de tela de cristal líquido, ou ainda pior, a heresia máxima de um dispositivo metido a besta, que faz as imagens e sons saltarem com qualidade impressionante, fazendo parecer dispensável aquele formato ‘gutemberguiano’ de registro de informações e emoções.
Dias atrás, a Intenet, através de seus diversos meios, noticiou uma afirmação do genial Steven Jobs, que questionado sobre a forma que sua empresa, a Apple, reagiria ao Kindle, da Amazon, disse que “o Kindle é um gadget morto à nascença porque as pessoas já não lêem”. Eu concordo em grande parte com isso, porém, isso não quer dizer que seja uma notícia feliz.
Creio que, amantes da literatura, irão adorar carregar centenas de títulos num dispositivo e lê-los onde quiserem, desde que a bateria esteja carregada. Assim como dizer que vídeos e sons disponíveis à mão, de forma rápida não seja igualmente maravilhoso seja menosprezar uma geração multimídia que já está existindo e de forma muito ativa. E creio que como eu, outros tantos irão adorar passar horas nas livrarias e bibliotecas se deliciando com essa janela de tempo dedicada à admiração da literatura.
No meu pensamento, as sensações que se formam na mente das pessoas ao lerem um livro, seja ele no Kindle ou em papel impresso, ativam um pensar lúdico, um estímulo à criação, muito diferente da mensagem completa recebida em um filme, onde imagens e sons vêm prontos.
A multimídia foi uma das conquistas da era tecnológica que estamos vivendo, e a cada dia se prova insuperável em sua capacidade de comunicação, na sua forma única de transmitir quase todos os componentes da comunicação.
Creio que diversas empresas divulgam declarações polarizadoras ao compararem as tecnologias que parecem ser concorrentes, talvez no intuito de gerar na cabeça das pessoas uma idéia de que uma opção necessariamente exclui a outra.
Estranhamente, a Amazon anunciou recentemente a liberação do software do Kindle para ser usado no iPod e iPhone. Logo, posso então utilizar uma forma superada de comunicação num dispositivo multimídia que desdenha as letras como forma de codificação da linguagem e comportamento humano. Bom, mas neste caso, estaria a Apple permitindo uma heresia contra seus valores, ou estaria a Amazon cometendo uma heresia contra si própria ao aderir ao dispositivo que desdenha sua visão do mundo?
Acredito que temos que ter uma visão mais crítica a cerca destas tendências todas e entendermos que tudo é uma questão de opção de cada um, para cada situação e em cada momento. Se a literatura acabou para essa geração que surge, eu só tenho a sentir muito, mas se essa geração faz seu destino a partir das estratégias de marketing das empresas, aí eu sinto mais o pesar.
Sabe, me ocorreu uma cena, que acho que seria legal: uma pessoa, num vídeo no iPod, contando estórias, que estão sendo lidas num Kindle, para crianças dormirem, mas aí a bateria acaba… do Kindle?… do Ipod?… Boa Noite!
